Maré e corrente: compreender o nível e o movimento da água

Nível da água e corrente respondem a perguntas diferentes. Compreenda a relação, o estofo e o efeito na viagem, com três situações explicadas.

01A água pode subir e também deslocar-se

A maré faz variar o nível da água. A corrente descreve o movimento da água, com uma direção e uma velocidade. Estão relacionadas, mas a altura da maré não permite, por si só, saber para onde corre a água nem com que intensidade.

Uma régua junto ao cais ajuda a perceber a mudança de nível. Já a corrente interessa quando queremos compreender como a água transporta uma embarcação. Uma informação não substitui a outra.

Fotografia do mar ao pôr do sol na Sardenha, com esquemas separados da variação vertical do nível da água e do movimento horizontal da corrente.
Montagem sobre fotografia Treino de Mar da Sailing Week Sardenha 2026. A seta vertical compara dois níveis; não representa uma altura acima do ZH. As setas horizontais explicam a corrente, sem indicar uma direção medida na fotografia. Esquemas sem escala.
InformaçãoO que descreveComo se apresenta
Altura da maréPosição do nível da água relativamente ao Zero Hidrográfico.Metros, com local, data, hora e plano de referência.
CorrenteMovimento da água no local e à profundidade considerada.Direção para onde corre e velocidade, por exemplo em nós.

Há correntes associadas às marés e outras influências, como o vento e a descarga dos rios. O comportamento depende também da forma e profundidade da zona. Neste artigo, os números são fictícios e servem apenas para explicar conceitos.

02Preia-mar não significa automaticamente corrente parada

A preia-mar é um máximo do nível da maré; a baixa-mar, um mínimo. Numa corrente de maré que alterna de sentido, distinguem-se a fase de enchente e a de vazante. Num estuário, a enchente é, em termos gerais, para o interior e a vazante para o exterior; a direção concreta acompanha a configuração local.

O estofo da corrente é a fase em que a sua velocidade se aproxima de zero, normalmente junto da inversão numa corrente alternada. A hora não tem de coincidir com a preia-mar ou a baixa-mar. A relação é própria de cada local, não uma regra que se possa transportar de um porto para outro.

Quando a tabela indica preia-mar · Dados fictícios
Às 12:00 há preia-mar, mas a corrente ainda tem 1,2 nós

Admitimos duas informações independentes para o mesmo local e instante, ambas em UTC: a tabela de marés indica preia-mar às 12:00, com 3,20 m; a informação de corrente indica 1,2 nós para 090° às 12:00 e estofo às 12:40.

  1. Ler o nível. Os 3,20 m são a altura prevista relativamente ao ZH. Não são a profundidade total nem uma velocidade.
  2. Ler a corrente. Os 1,2 nós e a direção 090° descrevem o movimento da água para leste, nesta hipótese.
  3. Separar os instantes. A preia-mar ocorre às 12:00 e o estofo às 12:40: neste cenário, há 40 minutos de diferença.
  4. Interpretar. A indicação de preia-mar não autorizava concluir que a corrente estava parada às 12:00.
O que aprendemosUm máximo de nível e um mínimo de corrente são acontecimentos diferentes.

Os 40 minutos pertencem apenas a este cenário inventado. Não são uma correção para Lisboa, para o Tejo ou para qualquer outro porto.

03A mesma altura não revela o sentido da corrente

Ao comparar dois momentos · Dados fictícios
1,80 m de altura da maré em duas horas distintas

Num local hipotético, temos os seguintes registos independentes. As direções são verdadeiras e indicam para onde a água se desloca.

Hora UTCAltura da maréInformação de corrente
10:001,80 m, com nível a subir1,5 nós para 000°
14:001,80 m, com nível a descer0,9 nós para 180°
  1. Comparar as alturas. O nível relativamente ao ZH é igual nos dois instantes.
  2. Comparar o movimento. A corrente indicada é para norte no primeiro e para sul no segundo, com velocidades diferentes.
  3. Concluir. Saber apenas «a maré está a 1,80 m» deixa por conhecer o sentido e a intensidade da corrente.
Duas consultas complementaresAltura da água e corrente respondem a perguntas distintas.

04O barco mantém 6 nós na água e muda o tempo de viagem

Com corrente a favor ou contra · Modelo fictício
Um troço de 3 milhas e uma corrente de 2 nós

Consideramos uma velocidade do barco na água de 6 nós, sem abatimento do vento. A corrente é constante, exatamente alinhada com o percurso, e o troço mede 3 milhas náuticas sobre o fundo. Neste modelo não há desvio lateral.

  1. Com corrente no mesmo sentido. A velocidade sobre o fundo é 6 + 2 = 8 nós. O tempo é 3 ÷ 8 = 0,375 horas, ou 22 minutos e 30 segundos.
  2. Com corrente no sentido oposto. A velocidade sobre o fundo é 6 − 2 = 4 nós. O tempo é 3 ÷ 4 = 0,75 horas, ou 45 minutos.
  3. Interpretar o instrumento. Os 6 nós na água não desapareceram: a corrente alterou o movimento relativamente ao fundo.
Mesma velocidade na água22 min 30 s ou 45 min, conforme a corrente considerada.

Somar ou subtrair diretamente só funciona aqui porque os movimentos estão alinhados. Se a corrente for transversal, é necessário compor direções e velocidades, como explicamos em proa, rumo e abatimento. Uma corrente pode alterar a velocidade sem criar diferença angular entre proa e rumo.

05Que informação procurar antes de interpretar o cenário

Um marégrafo regista o nível da água ao longo do tempo. Não fornece, por si só, a direção e a velocidade da corrente. Para estas grandezas, é necessária informação própria de corrente, obtida por medição ou previsão adequada ao local.

Antes de comparar produtos, identificar local, profundidade ou camada, data, hora, unidades e legenda. A direção da corrente indica para onde a água corre; no vento meteorológico, a designação indica de onde o vento vem. Nas setas de uma aplicação, conferir sempre a convenção usada.

Um produto para o largo não descreve automaticamente uma marina ou um canal estreito. Estes cenários explicam a leitura, não fixam uma hora de passagem ou um limite universal de corrente para uma saída.

Para continuar: tabelas de marés, ábaco e marégrafos e relação entre ZH, altura da maré e profundidade.

Fontes e referências

  • Treino de Mar · Manual Curso PL–PC v10Páginas PDF 8 e 14: movimento sobre o fundo e na água; pp. 42–43: vocabulário das marés. As simplificações sobre corrente parada em PM/BM não são adotadas como regra geral.
  • Treino de Mar · Marés–Ábaco v2Página PDF 6: preia-mar, baixa-mar, estofo e marégrafo. O instante do estofo é confrontado com a explicação hidrográfica abaixo.
  • Instituto Hidrográfico · Manual de Navegação, 4.ª edição, 1989Páginas PDF 79–83, impressas 57–61: movimento na água, movimento sobre o fundo e composição com a corrente. Usado para conceitos e geometria, não para dados operacionais atuais.
  • NOAA · Diferença entre maré e correnteDistinção física e diferentes causas das correntes.
  • NOAA · Relação entre marés, correntes e estofoA relação entre os instantes depende do local; não constitui uma previsão para Portugal.
  • Instituto Hidrográfico · Previsão oceanográficaPublicações e produtos portugueses; confirmar sempre o produto e a cobertura concretos.

Preparação editorial: Treino de Mar, com consulta das fontes indicadas. Exemplos didáticos; não representam previsões ou autorização para sair para navegar com uma embarcação.

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Fotografia do motor no menu: PHGCOM / Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0 · Redimensionada; recorte e dessaturação em CSS.

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