01A água pode subir e também deslocar-se
A maré faz variar o nível da água. A corrente descreve o movimento da água, com uma direção e uma velocidade. Estão relacionadas, mas a altura da maré não permite, por si só, saber para onde corre a água nem com que intensidade.
Uma régua junto ao cais ajuda a perceber a mudança de nível. Já a corrente interessa quando queremos compreender como a água transporta uma embarcação. Uma informação não substitui a outra.

| Informação | O que descreve | Como se apresenta |
|---|---|---|
| Altura da maré | Posição do nível da água relativamente ao Zero Hidrográfico. | Metros, com local, data, hora e plano de referência. |
| Corrente | Movimento da água no local e à profundidade considerada. | Direção para onde corre e velocidade, por exemplo em nós. |
Há correntes associadas às marés e outras influências, como o vento e a descarga dos rios. O comportamento depende também da forma e profundidade da zona. Neste artigo, os números são fictícios e servem apenas para explicar conceitos.
02Preia-mar não significa automaticamente corrente parada
A preia-mar é um máximo do nível da maré; a baixa-mar, um mínimo. Numa corrente de maré que alterna de sentido, distinguem-se a fase de enchente e a de vazante. Num estuário, a enchente é, em termos gerais, para o interior e a vazante para o exterior; a direção concreta acompanha a configuração local.
O estofo da corrente é a fase em que a sua velocidade se aproxima de zero, normalmente junto da inversão numa corrente alternada. A hora não tem de coincidir com a preia-mar ou a baixa-mar. A relação é própria de cada local, não uma regra que se possa transportar de um porto para outro.
Admitimos duas informações independentes para o mesmo local e instante, ambas em UTC: a tabela de marés indica preia-mar às 12:00, com 3,20 m; a informação de corrente indica 1,2 nós para 090° às 12:00 e estofo às 12:40.
- Ler o nível. Os 3,20 m são a altura prevista relativamente ao ZH. Não são a profundidade total nem uma velocidade.
- Ler a corrente. Os 1,2 nós e a direção 090° descrevem o movimento da água para leste, nesta hipótese.
- Separar os instantes. A preia-mar ocorre às 12:00 e o estofo às 12:40: neste cenário, há 40 minutos de diferença.
- Interpretar. A indicação de preia-mar não autorizava concluir que a corrente estava parada às 12:00.
Os 40 minutos pertencem apenas a este cenário inventado. Não são uma correção para Lisboa, para o Tejo ou para qualquer outro porto.
03A mesma altura não revela o sentido da corrente
Num local hipotético, temos os seguintes registos independentes. As direções são verdadeiras e indicam para onde a água se desloca.
| Hora UTC | Altura da maré | Informação de corrente |
|---|---|---|
| 10:00 | 1,80 m, com nível a subir | 1,5 nós para 000° |
| 14:00 | 1,80 m, com nível a descer | 0,9 nós para 180° |
- Comparar as alturas. O nível relativamente ao ZH é igual nos dois instantes.
- Comparar o movimento. A corrente indicada é para norte no primeiro e para sul no segundo, com velocidades diferentes.
- Concluir. Saber apenas «a maré está a 1,80 m» deixa por conhecer o sentido e a intensidade da corrente.
04O barco mantém 6 nós na água e muda o tempo de viagem
Consideramos uma velocidade do barco na água de 6 nós, sem abatimento do vento. A corrente é constante, exatamente alinhada com o percurso, e o troço mede 3 milhas náuticas sobre o fundo. Neste modelo não há desvio lateral.
- Com corrente no mesmo sentido. A velocidade sobre o fundo é 6 + 2 = 8 nós. O tempo é 3 ÷ 8 = 0,375 horas, ou 22 minutos e 30 segundos.
- Com corrente no sentido oposto. A velocidade sobre o fundo é 6 − 2 = 4 nós. O tempo é 3 ÷ 4 = 0,75 horas, ou 45 minutos.
- Interpretar o instrumento. Os 6 nós na água não desapareceram: a corrente alterou o movimento relativamente ao fundo.
Somar ou subtrair diretamente só funciona aqui porque os movimentos estão alinhados. Se a corrente for transversal, é necessário compor direções e velocidades, como explicamos em proa, rumo e abatimento. Uma corrente pode alterar a velocidade sem criar diferença angular entre proa e rumo.
05Que informação procurar antes de interpretar o cenário
Um marégrafo regista o nível da água ao longo do tempo. Não fornece, por si só, a direção e a velocidade da corrente. Para estas grandezas, é necessária informação própria de corrente, obtida por medição ou previsão adequada ao local.
Antes de comparar produtos, identificar local, profundidade ou camada, data, hora, unidades e legenda. A direção da corrente indica para onde a água corre; no vento meteorológico, a designação indica de onde o vento vem. Nas setas de uma aplicação, conferir sempre a convenção usada.
Um produto para o largo não descreve automaticamente uma marina ou um canal estreito. Estes cenários explicam a leitura, não fixam uma hora de passagem ou um limite universal de corrente para uma saída.
Para continuar: tabelas de marés, ábaco e marégrafos e relação entre ZH, altura da maré e profundidade.
Fontes e referências
- Treino de Mar · Manual Curso PL–PC v10Páginas PDF 8 e 14: movimento sobre o fundo e na água; pp. 42–43: vocabulário das marés. As simplificações sobre corrente parada em PM/BM não são adotadas como regra geral.
- Treino de Mar · Marés–Ábaco v2Página PDF 6: preia-mar, baixa-mar, estofo e marégrafo. O instante do estofo é confrontado com a explicação hidrográfica abaixo.
- Instituto Hidrográfico · Manual de Navegação, 4.ª edição, 1989Páginas PDF 79–83, impressas 57–61: movimento na água, movimento sobre o fundo e composição com a corrente. Usado para conceitos e geometria, não para dados operacionais atuais.
- NOAA · Diferença entre maré e correnteDistinção física e diferentes causas das correntes.
- NOAA · Relação entre marés, correntes e estofoA relação entre os instantes depende do local; não constitui uma previsão para Portugal.
- Instituto Hidrográfico · Previsão oceanográficaPublicações e produtos portugueses; confirmar sempre o produto e a cobertura concretos.













