Como ler os símbolos de uma carta náutica

Da sonda à luz e ao losango de corrente: encontrar a entrada certa, ler os dados e distinguir as convenções internacionais e nacionais.

01Um símbolo é uma entrada para mais informação

Para interpretar um símbolo de uma carta náutica, é preciso identificar a sua forma, ler as letras e os números que o acompanham e confirmar a convenção usada nessa carta. O U.S. Chart No. 1 ajuda nesta consulta; nas cartas portuguesas em papel, a referência é a publicação 10Z01 — Símbolos e Abreviaturas, do Instituto Hidrográfico, versão portuguesa da INT 1.

Uma sonda, uma linha isobatimétrica, a característica de uma luz e um símbolo de corrente comunicam coisas diferentes. Não basta reconhecer o desenho: a unidade, o plano de referência, a posição e as notas da carta completam o significado.

Este guia usa a coluna internacional do U.S. Chart No. 1 e situações inventadas para explicar essa leitura. Não é uma carta de uma zona real nem reproduz todos os símbolos do catálogo.

Três consultas distintas: sondas na secção I, luzes na secção P e dados de corrente na secção H do catálogo de símbolos.
Esquema próprio de consulta. I, P e H são letras de secções; não são instruções de navegação nem símbolos que apareçam todos juntos numa carta.

02Começar pelo título e pelas notas da carta

Antes de atribuir um significado a um número, vale a pena conhecer a carta onde ele está impresso.

  • Unidades e referência vertical. Confirmar em que unidades estão as sondas e a que plano se referem. Não transportar automaticamente os metros e o ZH portugueses para uma carta norte-americana, que pode usar outras unidades e outro datum.
  • Escala. Uma carta de maior escala mostra, em regra, mais pormenor da mesma área: 1:20 000 é uma escala maior do que 1:100 000. Ampliar uma imagem não acrescenta levantamentos nem detalhe que não existia.
  • Edição, correções e notas. Uma legenda corretamente interpretada não atualiza uma carta antiga. Para Portugal, consultar também os Avisos aos Navegantes do IH e a informação aplicável ao local.
  • Referência horizontal. Verificar o datum indicado, sobretudo ao relacionar posições da carta com um sistema de posicionamento.

A cor ajuda a organizar a leitura, mas não declara uma passagem segura. O tom de azul, por si só, não informa o resguardo disponível para uma embarcação.

03Escolher a secção e a coluna certas

O PDF fornecido é a 13.ª edição, de 15 de abril de 2019. A introdução distingue as colunas INT, NOAA, NGA e ECDIS. A coluna INT apresenta a representação internacional; as outras podem mostrar variantes nacionais ou uma apresentação eletrónica diferente. Uma coluna NOAA vazia não significa que o objeto não existe: pode significar que é usado o símbolo INT.

O que se quer compreenderOnde procurar
Título, escala, posições e direçõesA e B
Marés e correntesH
Sondas e linhas isobatimétricasI
Natureza do fundoJ
Rochas, naufrágios e obstruçõesK
Luzes; boias e balizasP; Q
Áreas, limites e condições indicadasN, em conjunto com as notas

O código junta a letra da secção ao número da entrada. Por exemplo, H46 identifica uma posição com dados de corrente tabulados; I10, uma sonda na sua posição. Estes códigos servem para encontrar a explicação no catálogo: não são valores de profundidade ou de corrente.

04Uma sonda de 3,2 m não é a profundidade a qualquer hora

Numa carta didática com sondas em metros e decímetros, referidas ao ZH · Valores fictícios

Encontramos um 3 com um 2 mais pequeno e rebaixado. Neste contexto, lê-se 3,2 m: três metros e dois decímetros, não 32 m. É a sonda reduzida nesse ponto.

Na convenção de metros e decímetros, uma sonda com 3 e um 2 pequeno rebaixado lê-se 3,2 metros; com altura da maré de 1,4 metros, a profundidade do exemplo é 4,6 metros.
Representação própria de uma sonda em metros e decímetros. O resultado só vale para as unidades, o local e o datum declarados; não se aplica a cotas de secagem, que têm outra convenção.
  1. Ler o valor e a referência. A sonda reduzida é 3,2 m abaixo do ZH neste cenário.
  2. Juntar a altura da maré no mesmo local e instante. Admitindo 1,4 m acima do mesmo ZH, a profundidade é 3,2 + 1,4 = 4,6 m.
  3. Separar o que o cálculo diz do que falta saber. Os 4,6 m são a profundidade do modelo. Não são uma garantia de resguardo sob a quilha: faltam o calado e as condições relevantes para essa avaliação.

Uma linha isobatimétrica une pontos de igual sonda reduzida. Não é uma margem de segurança pessoal. A forma e a densidade das linhas ajudam a ler o relevo, mas não revelam, por si só, a existência ou inexistência de todos os perigos entre sondas.

O tema está desenvolvido em Zero Hidrográfico, sonda reduzida e profundidade. Referências de consulta: H20, I10 e I30–31.

05Uma letra do fundo não substitui o símbolo de um perigo

Na coluna internacional da secção J, S indica areia, M lodo e R rocha ou fundo rochoso. Estas abreviaturas descrevem a natureza do fundo; não demonstram, sozinhas, que um local tem profundidade suficiente ou boas condições de fundeio.

Uma rocha que cobre e descobre, uma rocha à flor de água no datum e uma rocha submersa de profundidade desconhecida têm entradas diferentes na secção K. Pequenas diferenças de desenho e de números podem alterar a leitura. Quando surgir dúvida, consultar a entrada completa em vez de reduzir todos os símbolos a «há uma rocha».

Também há indicações de incerteza: SD identifica uma profundidade duvidosa e Rep algo comunicado mas não confirmado, nas entradas respetivas da secção I. Um número impresso não elimina automaticamente essa ressalva.

O contexto decide o significado: R junto de uma característica luminosa indica vermelho; na natureza do fundo, R pode indicar rocha. Ler a letra sem o conjunto pode levar à interpretação errada.

06Ao encontrar «Fl(2) R 6s 8m 5M»

Característica luminosa inventada para explicar a leitura · Não identifica um farol real

A sequência mistura ritmo, cor, tempo, altitude do plano focal e alcance. Lê-la por partes evita confundir grandezas.

Fl(2) significa grupo de dois relâmpagos; R, vermelho; 6s, período completo de seis segundos; 8m, altitude do plano focal de oito metros; 5M, alcance nominal de cinco milhas náuticas.
Característica fictícia, decomposta segundo as entradas P10.4 e P11–16. O m minúsculo e o M maiúsculo representam grandezas e unidades diferentes.
  1. Fl(2): grupo de dois relâmpagos. O padrão repete grupos de dois; não é uma luz continuamente acesa.
  2. R: vermelho. Aqui a letra descreve a cor da luz, não a cor de uma boia nem a natureza do fundo.
  3. 6s: período completo. Os seis segundos incluem o conjunto dos relâmpagos e dos intervalos de obscuridade do ciclo. Não são a duração de cada relâmpago.
  4. 8m: altitude do plano focal. São oito metros entre o plano focal da luz e o plano de referência para alturas indicado na carta. Não é uma sonda nem a altura da torre; na Lista de Luzes portuguesa, a altitude do plano focal é referida ao nível médio do mar.
  5. 5M: alcance nominal. São cinco milhas náuticas de alcance nominal; não uma promessa de visibilidade a essa distância em quaisquer condições. A visibilidade meteorológica e a geometria de observação também contam.

O resultado da leitura é uma luz vermelha, com grupos de dois relâmpagos num ciclo de seis segundos, altitude do plano focal de oito metros acima do datum de alturas e alcance nominal de cinco milhas náuticas. Para identificar uma luz real, é preciso confrontar a posição e as informações atualizadas, não apenas uma parte do ritmo.

07O losango A remete para uma tabela, não indica uma direção

Numa carta didática com um ponto de corrente e um excerto de tabela · Dados fictícios

O pequeno losango com uma letra, na representação internacional H46, marca a posição a que correspondem dados tabulados de corrente de maré. A letra A permite encontrar esses dados na tabela. O losango não é uma seta; não diz para onde a água corre.

Um losango magenta com A remete para a tabela A; no excerto fictício PM mais uma hora, direção 000 graus, a corrente corre para norte, com 2,0 nós em águas vivas e 1,2 nós em águas mortas.
Esquema próprio baseado em H46. Excerto de tabela inventado, não operacional: a leitura real exige a tabela completa, o porto de referência e as suas instruções.
  1. Localizar o ponto A e a tabela correspondente. Não usar os dados de outro losango só por estar próximo.
  2. Ler a referência de tempo. Se a tabela usa horas relativas à preia-mar num porto de referência e a linha é PM + 1 h, conta-se uma hora depois dessa preia-mar. Não é necessariamente a preia-mar no próprio ponto A.
  3. Ler a direção. A tabela fictícia deste exemplo usa direções verdadeiras: 000° indica corrente para norte verdadeiro. Numa publicação real, confirmar a referência direcional declarada.
  4. Ler a coluna de velocidade. A linha mostra 2,0 nós em águas vivas e 1,2 nós em águas mortas. Não se escolhe uma coluna ao acaso: as condições da data e as instruções da publicação orientam a utilização dos valores.

Neste exemplo, a posição vem do losango; o sentido, a velocidade e o momento vêm da tabela. Uma altura de maré não substitui esta informação de corrente. Para aprofundar, consultar maré, corrente e estofo.

Se se acrescentar à carta uma nota «vento de NO», essa nota é informação meteorológica do planeamento: o vento vem de noroeste. Não se confunde com a corrente «para norte» nem com um símbolo hidrográfico impresso. O artigo sobre proa, rumo e abatimento explica a diferença entre os efeitos.

08A mesma informação pode ter outra apresentação no ecrã

O U.S. Chart No. 1 coloca lado a lado simbologia de papel e de ECDIS. Em ECDIS, a apresentação de certos perigos depende das configurações do sistema; informação adicional pode ser obtida por consulta do objeto. Uma aplicação de recreio pode usar ainda outra apresentação. Não assumir que cada símbolo no telemóvel corresponde visualmente a uma coluna ECDIS do catálogo.

As particularidades nacionais também contam. O documento apresenta, por exemplo, diferenças entre as regiões A e B do sistema de balizagem IALA. Portugal está na região A; a maior parte das águas norte-americanas está na região B. Não transportar a regra de cores das marcas laterais de uma região para a outra. A identificação requer a convenção e o sentido de balizagem aplicáveis, não apenas a frase «vermelho à direita».

Uma forma prática de consultar é: identificar o objeto; encontrar a entrada; escolher a coluna aplicável; ler números, unidades e notas; relacionar o significado com a carta e a informação local atualizada. A interpretação do símbolo é uma parte da leitura da carta, não uma decisão completa de passagem.

Fontes e referências

Preparação editorial: Treino de Mar, com consulta das fontes indicadas. Exemplos didáticos; não representam previsões ou autorização para sair para navegar com uma embarcação.

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Fotografia do motor no menu: PHGCOM / Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0 · Redimensionada; recorte e dessaturação em CSS.

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